quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ano novo e a experiência ideal

O homem quer entender a realidade. A princípio é o único dos seres vivos no planeta Terra que possui essa inquietude. Os demais cumprem com a determinação universal de perpetuarem suas espécies, sem a preocupação de aperfeiçoá-las, seja lá o que isso possa significar.

Inicio essa reflexão após chegar a conclusão de que cansei de ver e ouvir tantas bobagens à véspera do novo ano de 2015. A esperança, o exercício às vezes sincero e possível, de se tentar fazer um balanço do período compreendido entre o dia 31 do ano anterior e o dia 31 desse que se encerra, em tese, determinaria novos objetivos, planejamento e execução, para que em 31 de dezembro de 2015 se esteja elaborando essa mesma reflexão. Aliás, essa avaliação poderia ser feita em períodos menores de tempo.

Apenas como ilustração, e já tentando dar um tom mais objetivo e concreto ao cenário ilusório que se tenta (e se consegue) construir, é importante que se entenda porque a mudança de calendário carrega esse simbolismo de esperança. O ano-novo que começa no dia 01 de janeiro se baseia no calendário gregoriano (Dia do Ano Novo), assim como era no calendário romano. É bom lembrar que existem inúmeros calendários que permanecem em uso em certas regiões do planeta e que calculam a data do ano-novo de forma diferente.

A comemoração ocidental, que é o nosso caso, tem origem num "decreto" do imperador romano Júlio César, que fixou o dia 01 de janeiro como o Dia do Ano-Novo, em 46 a.C. Os romanos dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões. Aliás, o mês de Janeiro deriva do nome de Jano, que tinha duas faces (bifronte) - uma voltada para frente (visualizando o futuro) e a outra para trás (visualizando o passado).

Bem, mas o exercício mental do balanço obedece, na minha opinião, à força universal e ainda inexplicável, que impele os seres vivos a perpetuarem sua espécie e, no caso do ser humano em particular, induz a um esforço pelo aperfeiçoamento, deliberado (com a participação da consciência) ou não. Esse processo de romper com o antigo e limitante em busca de novos ciclos através da ação consciente, é conhecido por alguns como "Catarse".

Segundo Aristóteles, o filósofo grego, a "Catarse" referia-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama, ou seja, através de um novo estado produto de uma experiência cognitiva e emocional. Já na psicanálise, a "Catarse" é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, tanto as psicológicas quanto as cotidianas, através de uma resolução que se apresente de forma eficaz o suficiente para que tal ocorra.

Nesse momento estou lendo alguns livros e um deles se chama "Flow: The psychology of Optimal Experience" de Mihaly Csikszentmihaly (1989), visando uma pesquisa para aprofundar o estudo sobre o comportamento empreendedor. Menciono este livro (e recomendo sua leitura), pois me identifiquei com a lógica utilizada pelo autor nascida a partir de pesquisas científicas sobre o tema felicidade.

Mihaly afirma que a mais de 2300 anos atrás, Aristóteles, o mesmo filósofo grego mencionado anteriormente, já havia concluído que mais do que qualquer outra coisa, homens e mulheres procuram a felicidade. Após vários exemplos, o autor afirma que a "experiência ideal" (optimal experience no original) usualmente não está relacionada a algo que acontece por acaso, mas a algo que fazemos acontecer. Óbvio que poderíamos passar um tempo bem maior tratando dessa conclusão, mas vou me ater ao que nos interessa aqui agora.

De acordo com Mihaly, ter o controle sobre parte do que nos acontece não é algo fácil e, em muitos casos, é realmente algo doloroso, difícil. Porém, no longo prazo, a experiência ideal nos traria a sensação de domínio, ou melhor dizendo, nos daria o sentimento de se estar participando na determinação do conteúdo da vida, o que segundo o autor, estaria mais próximo daquilo que se entende como felicidade do que qualquer outra coisa que se possa imaginar (1989, p.4).

Assim, num esforço de síntese, chego a uma conclusão preliminar de que os finais de ciclos devem ter como um dos objetivos para os quais são estabelecidos, o de se fazer um balanço, avaliando-se os resultados das próprias experiências, em termos cognitivos e sensíveis, cotejando-os com os objetivos estabelecidos no início do ciclo em análise, caso tenham sido definidos. Entendo ainda que estes resultados serão tão bons quanto for o nosso sentimento de domínio sobre nossas reações sobre a realidade imposta no período e devem subsidiar os novos objetivos e metas do novo ciclo.

Diante disso, hoje é um bom dia para se encerrar ou iniciar este fluxo.

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